DOIS ESCRITORES NO QUARTO ANDAR
A aventura dos escritores Carlos Reverbel e Rubem Braga no endereço imortalizado por Marcel Proust, em Paris
Rubem Braga
Uma coisa que muita gente não sabe é que o jornalista Carlos Reverbel e o cronista Rubem Braga eram grandes amigos. Na dedicatória à antologia de crônicas, "Ai de ti, Copacabana", Braga colocou ao Reverbel a seguinte dedicatória: "para Carlos (que não é Luís nem Prestes) e para a Olga (que não é Benário), com um abraço do Velho Braga". "O Rubem era um sujeito de poucos amigos", disse Reverbel certa vez, a respeito do cronista.
Se conheceram em 1935, quando o jovem Braga esteve em Porto Alegre para cobrir as comemorações do centenário da Revolução Farroupilha para a Folha do Povo, do Recife. Em 1939, encontramos Braga em de novo em Porto Alegre. "Sua temporada aqui foi breve", disse o ensaísta gaúcho. "Ele teve de deixar o Rio de janeiro pressionado por fatores políticos e sentimentais", revela.
Na mesma coletânea de crônicas em que Rubem faz a curiosa dedicatória, o cronista relata um episódio que envolveu ele e Reverbel: a vez em que estiveram juntos em Paris, e ficaram hospedados num edifício antigo na rua Hamelin - o endereço onde morreu o escritor francês Marcel Proust. O célebre escritor ficou ali até sua morte, em 1922.
"Eu vivia no quinto andar, e Reverbel vivia no segundo", diz Braga. Numa crônica, ele conta que lá estavam ele e Carlos, à procura do tal edifício, quando tropeçaram num sindicato. "Descobrimos depois que era o endereço errado, o certo era o 44 e não o 42". O capixaba brincava ao vangloriar-se de ser mais proustiano do que Carlos. Braga dizia que era o primeiro com peito de remador a não acabar cochilando à sombra dos volumes de
Em Busca do Tempo Perdido - embora pudesse descrever com precisão o castelo de Germantes, Combray. Diz Rubem:
- Pois morram de inveja, eis-me aqui, no endereço onde morreu Proust, onde ele dormia sob efeito de Veronal para acordar de manhã e ficar esperto à doses maciças de cafeína, falando com amigos sobre pintura, escultura ou literatura, citando de Manet a Anatole France. No fim, ele escreveu: Tomem nota, rapazes: Passy 61-61, o telefone do Proust e do Braga.
posted by Marcelo Xavier at 3:29 PM